O uso corriqueiro da linguagem, que tem sentido prático e imediato, evita que no dia a dia um indivíduo comum caia na bobagem de investigar seus próprios procedimentos e utilizações da comunicação.
Desta maneira, qualquer um de nós, de forma natural ou não consciente, praticamos e empregamos uma ferramenta poderosa no decorrer de nossas relações humanas, para os mais diversos fins.
O ato de apelidar é um comportamento espontâneo do ser humano, que não perde nenhum segundo na sua vida para pensar na conseqüências deste ato, e o utiliza para as mais diversas e obscuras finalidades.
1 tese: O apelido é óbvio. Ridículo é refletir sobre o apelido.
Uma vez que orientamos o sentido do ato de apelidar, convém analisar algumas de suas características.
2 tese: Todo apelido é uma perversão.
Perversão no sentido empregado, não pode, em hipótese alguma, ser confundido com o sentido psicológico que o termo pode possuir. Significa tão somente a torção, a subversão da linguagem, mais especialmente sobre o emprego dos nomes, ou o ato de nomear as coisas.
3 tese: O nomear é invocar uma essência, se aproximar da verdade, uma tentativa de substancializar a coisa. O apelido é um conjurar hipócrita, é um desvelar toda a diferença e imperfeição da coisa ou do ser, evidenciado suas falhas, mas mantendo-as protegidas sob a guarnição da imagem ou da metáfora, que por todos é entendida, gerando riso e não podendo ser atacada por conta do próprio caráter fantasioso.
Aparentemente negativa, a imagem do acontecimento do apelidar, não obstante a carga de sofrimento que gera em todas os grupos sociais em que ocorre, é um fenômeno positivo que critica e recicla a cristalização social.
4 tese: O apelido destrói para que ninguém fique parado, para que nenhuma instituição fique impune.
Com estes quatro pequenos passos esboçados, temos de passagem bons indícios da importância do tema que estamos a tratar. Por que então, nossa civilização não cuidou de nos preparar e nos orientar no uso e desenvolvimento de tal ferramenta?
5 tese: O apelido é fundamental para a humanidade. No entanto, assumir o caráter efêmero e baixo do apelido é a condição de sua existência no campo das relações humanas.
6 tese: O ato de apelidar é uma arte.
Sobre a arte de apelidar.
Agora que temos algumas teses para experimentar uma reflexão mais aprofundada sobre os apelidos, podemos desenvolver melhor certos exemplos. Apenas de forma ilustrativa:
Apelidos de amigos
Apelidos de namoradas (próprias ou alheias)
Apelidos de chefes (e ou professores, superiores e governantes)
Apelidos de parentes
Apelidos de inimigos
Cada uma destas (se assim podemos chamar) “categorias”, como todos nós sabemos naturalmente, possuem sistemáticas próprias.
Os apelidos dos amigos, talvez os mais numerosos, em regra marcam a posição que o sujeito ocupa na turma e uma idéia geral sobre alguma característica física (defeito, qualidade ou trejeito). Eles funcionam de maneira quase afetiva, e carregam certa dose de afinidade, sendo o seu uso permitido apenas para os membros mais próximos.
Já os apelidos de namoradas, são sempre apelidos usados do outro lado do grupo. Se uma namorada sua ou do seu amigo possui apelido, certamente, você ou o namorado em questão não tem permissão para descobri-lo. Isto indica que esta forma de apelidar funciona com objetivos diferentes, atuando mais na caricatura e distorção da namorada visada.
A curiosidade dos apelidos sobre os chefes e demais cargos superiores, é que eles funcionam, na maioria dos casos, como transfigurações dos medos e pressões que os próprios funcionários e submetidos carregam. A maneira mais fácil de se apelidar nesta categoria é exagerar o poder exercido por esta pessoa, de modo a torná-lo risível, principalmente para nos acalmar a respeito de sua atuação e de seu perigo.
Para parentes e inimigos, categorias muito próximas, por mais estranho que possa parecer, a curiosidade está no procedimento comum de inverter valores ironicamente. O pai invertido no papel de mãe, o inimigo invertido no papel de amigo, a sogra no papel de auxiliadora (neste caso, a sogra pode figurar também na categoria de chefe ou patrão pelo medo que impõe). Em todos estes casos, os apelidos figuram engraçados pelo impacto da desconformidade que geram.
A parte estes apontamentos sugestivos, a regra de ouro que sugiro para tais questões é buscar a arte de misturar os três elementos básicos:
A sonoridade do apelido
+
A perversão lingüística que ele representa
+
O conteúdo contrastante que ele indica (o choque do defeito da pessoa com alguma imagem engraçada ou invertida)
Misturando com muita sutiliza (quanto mais, melhor) mais perfeito e duradouro será o apelido.
Publicado em 12 de março de 2004 às 16:03 por rodolfo
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