Quando vc não tem mais nada para falar num blog vc acha tudo um pouco chato. Dá a impressão de que tudo já foi dito, e que também não adianta falar mais nada nesse espaço efêmero, que ninguém vai querer ler ou se interessar por alguma coisa pensada por vc. Então vc sente um silêncio absoluto pairando nesse lugar, vc olha com desconfiança, por trás das cores, do visual, da performance dos lay outs, das piadinhas e das controvérsias forjadas e pensa que por trás de tudo aquilo existe um absoluto vazio, e que a internet é também um puta vazio e uma puta sacanagem para tirar dinheiro dos caras e que o que continua movendo essa merda toda ainda é a vaidade e a curiosidade transmutada na bisbilhotice, mas vc decide não falar nada disso para não chocar ninguém, para que ninguém fique muito ressentido e pare de ler o seu blog, simplesmente porque vc ainda tem uma doença remota que o faz acreditar que alguém continua lendo essas coisas que vc, às vezes, se incomoda em dizer.
Vc sente que algo está faltando quando uma pequena dorzinha no canto superior esquendo do pescoço começa a acusar e dizer que alguma coisa não vai muito bem. Vc começa a sentir a boca seca, meio palpitante, não sabe bem porquê e começa a perder o sono, ou dormir em momentos e ocosiões inoportunas. Passa a comer muito, e enjoa muito fácil de certos alimentos e sente dificuldade de mudar dos hábitos alimentares e daí começa tb a roncar de forma intermitente, sem saber como curar isto.
Mas facilmente vc se adapta. Seu corpo se transforma e as idéias se reagrupam, quase num movimento esmaecido, de que aquilo tudo é normal, e vc então decide estimular seu organismo, que se encontra cansado, precisando de estímulo. Vc toma café álcool fumo e quaisquer outras substâncias a fim de evitar quedas para o tédio, e aí vc se alegra mas sempre lastreado de alguma coisa ou alguma reminiscência.
O mágico do sono é o momento em que vc realmente desliga e passa a acreditar na lógica onírica que o seu próprio cérebro criou para vc se distrair. Somente neste momento raro, nessa ilha de excessão, vc comente o excesso de se esquecer de si mesmo (ainda que vc transporte para o filme roncado alguns desejos inconclusos) e vc é um ser belo, quse morto, quase pronto para ressuscitar e voltar a levar uma vidinha medíocre a troco de alguns prazeres efêmeros.
Tudo isso é pequeno perto de uma vertigem que alguém, ou eu, ou vc sente quando saí na rua e vai trabalhar, procurar emprego roubar ou estuprar alguém, neste ímpeto vc tb deixa seu senso crítico e estabelece de pronto que a ação não admite hesitação. Pega o ônibus e atravessa a cidade, encontra os amigos, entabula diálogos, ri de todos, quando muito vc se engana acreditando ter conseguido uma idéia legal, ou uma mina legal, ou um porrezinho louco legal e comprou uma revista pornô legal com pernas e xanas legais, mas lembra tb que não pode contar isso para a sua mãe nem namorada nem vó. Tudo isso faz vc esquecer porque vc atravessou todo aquele caminho maluco da cidade, e teve ainda que cruzar um monte de gente estranha, mal humorada, teve que agradecer o cobrador e pedir licença pra uma senhora, e no fim vc tb tinha certeza de que vc no final voltaria para casa, qualquer que fosse o resultado daquilo que te levou a sair dela, se é que vc realmente queria isso.
Acomodado vc deita mais uma vez cansado e agradecido por estar cansando e não ter mais uma noite de insônia, mas vc olha ao lado e tem a impressão de estar ocupando o centro de um buraco, dum ninho, e de que a sociedade inteira é uma coméia e que a cama é cada vez mais quente e sufocadora.
Nem por isso vc deixa de acreditar nas coisas. A grande arte de tudo isso é continuar acreditando. Ensinaram ser uma grande fraqueza estragar tudo, até vc mesmo, alguém te lembrou que vc deveria cuidar de si mesmo e até prestar alguns serviços comunitários. Vc não deve nem desacreditar nem ficar parado nem ficar reclamando nem doido histérico e, ao contrário de importunar outras pessoas, vc deve ajudar e, quem sabe talvez, deixar tudo como está e reforçar tudo aquilo que te incomoda, direta ou indiretamente, ainda que vc não saiba de onde ou como aquilo te atinge. Tem horas que vc acha tudo isso o máximo, e que a grande piração da vida é deixar isso fluir e celebrar a grande força motriz que às vezes é a fortuna, o incerto ou o destino, conforme melhor lhe convir.
Nada disso deveria estar sendo dito, e vc se lembra que está arrependido de dizer essas coisas por às vezes não concondar com todas elas. Vc deixa escapar, e tem uma vaga lembrança de que não tinha nada legal para postar no blog, vc conclui que deveria tem ficado quieto, se arrepende, lembra de todos os caras chatos que vc tem certeza de que vão reclamar. Talvez vc tenha feito isso por conta do silêncio, por conta de um silêncio absoluto que se estabelece quando o barulho é intenso, quando vc sente sua cabeça fechar feito uma panela de pressão e o som ficar uníssono.
Publicado em 05 de abril de 2004 às 16:56 por rodolfo