É com uma certa dose de tristeza que me lanço neste texto para tentar registrar alguns pensamentos que não me saem da cabeça.
Isso é o que eu chamo de burrice letárgica. Nem havia pedido nada, nem insinuado, quanto menos usado de malicia, logo no momento em que Marina Raquel, com aquele jeitinho que é tão peculiar às mulheres de personalidade forte, deu-me as costas, de brusco, executando um teatrinho infantil, só por causa de uma frase: mulheres não gostam de jazz.
Duas semanas de conversa e dedicação, bebendo moderadamente em bares que me são estranhos, e aquele ser do sexo oposto não conseguia entender minhas inquietações filosóficas. Pedia a ela apenas uma ponta, um pouco de seu tino de atriz, o máximo que ela iria mostrar no curta seria o delicado pezinho, branco, macio (que eu nem consigo esconder minha pronta excitação). Apenas Lúcio Batonne
Cara, você não vai acreditar! É impressionante, os caras criaram uma bebida alcoólica que realmente turva a consciência. Meu, é muito lôco! Você já viu aquela propaganda da vodca Smirnoff, que a garrafinha fica passando na frente da tela, e conforme ela passa tudo vai mudando no fundo. Um gato vira um leão selvagem, uma velha vira uma puta gostosa, um prédio abandonado vira uma rave inglesa; num plano chapado tudo é cinzento, monótono, a garrafa quando passa, através de seu vidro, transforma tudo em vermelho, cor do pecado, vivo, sensual, gostoso. Nem sei como te contar, mas é exatamente isso: eu ontem tomei um porre doido, de uma bebida doida, na qual aconteceu comigo a mesma coisa do comercial.
Antes de começar a explicar como consegui essa garrafa fudida, é conveniente te contar o que estava acontecendo comigo na época do ocorrido. Lembra que eu tinha falado pra você que mulher é tudo mentirosa, e enquanto eu tentava te explicar uma coisa importante, você ria como um bobão e me xingava de paranóico, sem poder me escutar. Pois é, bicho burro. Não foi qualquer coisa não aquela tal de Marina Raquel. Uma puta gostosa, primeiro ano de faculdade, letrada (gostava de Machado de Assis, filme italiano e escutava Bach), cara, eu perdi minha cabeça por causa dessa filha da puta. Pra dizer a verdade, a primeira coisa que me chamou a atenção nela, você não vai acreditar, foram os pés. Delicadinhos, branquinhos, esculturais eu diria. Sabe como são essas moças intelectuais, aqueles vestidinhos indianos, só pra disfarçar o corpo magrinho, na medida, e para acompanhar algumas sandálias escrotas, que deixam o pé escancarado, muitas vezes até cascudo. Mas não, não no caso dela. Deve ser um estilo de fachada, ela deve ter dinheiro essa vagabunda, basta se aproximar e perceber que tudo é muito bem cuidado, não tem uma desgraçada de uma unha torta ou micozeada. Tudo nela é liso, do cabelo preto escorrido até o calcanhar rosado. Eu tava loco para conferir o resto, me certificar daquela pureza genética. Toda hora que eu ficava nervoso em casa ia para o banheiro homenageá-la.
Publicado em 10 de agosto de 2004 às 01:55 por rodolfo