Há muito tempo tinha a impressão de que o átimo era um blog cheio de sujeira e monotonia, que só tratava de coisas ruins e problemas. Ficava tentando postar umas reflexões sobre o lado mais obscuro do ser humano, que tratava de fraquezas, instintos, mentiras e malandragens (muitas vezes cheguei até a frequentar bares para investigar isso a fundo) por que para mim, de alguma maneira, essas coisas constituiam assuntos interessantes que mereciam ser abordados. Tinha a crença de que isso pudesse interessar e chamar a atenção de outros, por pensar que essas maluquices eram parte de todos nós, compartilhadas igualmente. Sinceramente, eu não tinha idéia de como isso era uma visão negativa do mundo, um jeito decadente; e de que eu era responsável por isso. Na verdade, o meu olhar estava condicionado pela minha situação negativa: se minha situação beirava a derrota, não seria de se estranhar que meu olhar cansado só percebesse o lado mais imbecil do ser humano. Tudo isso era “Eu”, eu que projetava essa merda toda.
Senti que deveria me libertar de tudo isso. Aquelas cores escuras, cinzentas. Aqueles textos chatos, elocubrativos, prolixos. Assuntos sobre o ar misterioso das mulheres. A apologia de drogas letárgicas como o álcool. Apologia aos fracassados, mendigos, bêbados de esquina, pobres camuflados, adolescentes vagabundos que exploram os pais. Tratados sobre as prostitutas, teses para inventar apelidos humilhantes, inventar mentiras, tirar dinheiro das vovós...essa sujeita toda era um quarto sujo em que o átimo se transformou e do qual eu nunca poderia ter uma visão boa do mundo e das coisas que estão acontecendo.
Foi nesse profundo desalento que percebi a necessidade de mudança. Queria voltar a ter um olhar renovado, limpo, sem vício. Que pudesse ser sensível a coisas boas que estão acontecendo hoje, ao redor de todos nós. Nessa disposição, de forma espontânea e imperceptível, deparei-me como olhar do Bozo. Um olhar sublime que apenas duas palavras sugerem: Puro e Alegre. Era isso, nada mais que isso que precisava.
Eu até me lembrei de uma ocasião antiga de família. Uns dois anos atrás, conversando com minha avó distante, descobri uma curiosidade sobre mim que já havia esquecido muitos e muitos anos atrás; disse minha vó: vc se lembra como vc gostava do Bozo, vivia assistindo o seu programa...um dia vc me contou que o Bozo era o seu pai... Era simplesmente isso que minha avó me contava, que quando pequeno eu tinha a brilhante idéia de achar que ele podia ser meu pai, que meu pai pudesse estar fantasiado. Vovó Tilita entendia isso como uma consequencia de eu gostar muito daquele personagem; já de minha parte, evitando exteriorizar meu constrangimento, eu sabia muito bem o porque dessa confunsão meio absurda: na verdade, eu confundia totalmente o plano da fantasia com o da realidade. Não havia diferença, tudo era uma coisa só, viva, presente. Essa coisa de misturar fantasia e realidade, é exatamente isso que está faltando no mundo hoje. Todo mundo tem mania de separar essas coisas, de achar que uma vive sem a outra.
São coisas assim que quero evitar daqui em diante. Olhar para o mundo sem encanto, sem alegria, passar desapercebido pelas belezas da nossa época, nossos avanços, conquistas, tudo de bom que nos acontece. Quero que a fantasia volte ao mundo, que todos fiquemos felizes, sorrindo e satisfeitos. Quero ver longe os pessimitas, os críticos de plantão, os fatalistas, os profetas apocalípticos, as crianças choronas, as gordas mal amadas. Quero uma gargalhada no fim de tarde, depois de um trabalho feliz, porque somento o riso salva. Porque se vive melhor rindo, e como diz o provérbio: rir é o melhor remédio.
E eu acho que é possível mostrar para o mundo todo que Bozo pode ser uma grande proposta hoje, que nesse contexto de insatisfação, de problemas e de desigualdades, ainda ér possível acreditar na fantasia, dar risadas, ver brilho nas coisas, ser feliz. Tal como diz aquela musiquinha do programa: "sempre rir, sempre rir, prá viver o melhor é sorrir...
Publicado em 28 de setembro de 2004 às 16:58 por rodolfo